Cabeça fria, coração quente

FREDERICO MORIARTY

Alessandro desceu no porto de Santos, vindo de Gênova, em 1894. Veio com a mãe, uma irmãzinha e um gajo mais velhinho. Foi artista e construtor. Conheceu Joventina. Casou. Em 1927 nasceu seu quinto filho, Leonardo da Vinci, meu pai.


A memória afetiva no futebol começa aos 10 anos. Lembro perfeitamente da atmosfera e das partidas finais do Paulistão de 1977. Basílio que o diga.
O italianinho ( meu pai) nasceu e morava em Itapetininga. Apaixonou-se pelo time da colônia: o Palestra Itália, lá por 1937, quando plantou-se no coração gigante a memória afetiva. Privilegiado, não viu apenas os 5 primeiros títulos Paulista do time. Quase um observador de toda a história.


Nasci aos 40 anos de meu pai em 1967. Criança ouvia as histórias da Academia de futebol. Vesti a camisa verde e branca pela primeira vez em 1976. Mamãe costurou o número 9 nas costas e o escudo da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Essa foi uma das histórias que ele me contou: Durante a Segunda Guerra a perseguição aos italianos, japoneses e alemães foi brutal. Getúlio confiscava os bens conquistados pelos imigrantes para supostamente combater os nazi-fascistas. Pessoas batiam nos filhos-do-eixo, como o italianinho. Véspera da final do Paulista 1942 e o São Paulo denuncia o Palestra Itália e pede sua exclusão do futebol brasileiro. Na correria, no desespero, em três dias a agremiação se salvou. Virou Palmeiras, abandonou o vermelho da velha Itália. Foi obrigado a esconder-se para não morrer. Ele sempre me ensinou que o Corinthians era o adversário necessário, como dois amantes que se precisam mas são incapazes de conviver. O Yin Yang do nosso futebol. Agora o São Paulo é rival, deseja nossa morte. Meu pai sempre teve o coração dividido entre o Palmeiras e o Palestra. Jamais aceitou a brutalidade do outro.

O primeiro que vi jogar


Foi dele que ouvi que técnico brasileiro era medroso. Quando tinha um jogador expulso, tirava um atacante e colocava um zagueiro. ” porque não reorganizam o time com 10?”.
Depois de um jogo que durou 7 dias, meu pai me deu esperanças. Semana passada jogamos contra a torcida do melhor time brasileiro. O Atlético Mineiro ganhou os 4 campeonatos de 2021 ( não ganhou apenas a Libertadores, derrotados por nós, é claro). Um time que investiu $ 300 milhões na contratação de jogadores. Contando com o maior artilheiro do Brasil na temporada. Aos 5 minutos do segundo tempo estava 2 a 0 para o Galo. Já era, pensei. Vamos tomar de 4 hoje. Mas esse Palmeiras de Abel é incansável, é imponderável, é infalível. Teve calma, se reorganizou e o zagueiro Murilo se redimiu do pecado cometido no gol contra e fez 1 a 2. Como um Muhammad Ali dos gramados, o Palmeiras começa a dançar sobre o adversário. Toca a bola, gira, aprofunda, passa com precisão, vai cansando as linhas inimigas e quando encontra uma brecha nas fronteiras, verticaliza o ataque e fulmina o adversário. Aos 47 do segundo Danilo empata o match. Decisão em aberto para a semana seguinte no Parque Antártica ( também conhecido como Allianz Parque).
Jogo tenso. Estádio lotado pela torcida que canta e vibra. Não tive coragem de assistir ( tive a excelente ideia de não ligar a tv). Mas aos 26 do primeiro tempo, ou seja, 65 minutos antes de acabar a partida, numa butinada inexplicável para a qualidade de Danilo, o jovem foi expulso. Derrotar o melhor elenco do Brasil com 11 já é difícil, com 10 quase impossível.
Mas Abel é corajoso e inteligente como meu pai. Não tirou ninguém. Reorganizou o time. Reposicionou as linhas. Empurrou o Poderoso Galo de Reinaldo, Toninho Cerezo, Ângelo e tantos craques, para as laterais, matando a principal jogada do time, pelo centro, para alimentar o Incrível Hulk. Afunilou e não abdicou de atacar. Com um a menos, aproximou-se do gol mais do que o adversário. Veio o segundo tempo e aos 36, portanto a 14 minutos do final, o maior craque alviverde, leitor incansável, Gustavo Scarpa é expulso de campo pelo apitador, numa decisão tão vexatória quanto a de Crime e Castigo, obra preferida do atacante palestrino. Pela milésima quinta vez pensei ” agora já era”. Mas estava em campo o Sobrenatural Futebol Clube. O Galo não ameaçava, no máximo tirou uma casquinha da trave. Aos 51 minutos, para se dizer isento, a Arbitragem de penitenciária, expulsou um do Atlético. . Fim de . jogo. A decisão será por pênaltis.


E agora? Assisto ou não assisto, déti is de cuéstion. Não fui. Pra não dar azar ao time. A torcida cantava a 90 minutos, apoiando time. Dois batedores estavam fora: Scarpa e Dudu.
Galo 1 a 0. Palmeiras 1 a 1. Estou desesperado. O gênio louco Abel nunca vencera uma decisão por pênaltis. Resolvi jogar com o time. Na cama, travesseiro em mãos, proferia o mantra do técnico português ” Cabeça Fria, Coração Quente”!! Cinco vezes e daí olhava para o celular…1 a 2, 2 a 2, 2 a 3, 3 a 3, coração quente, cabeça fria!! Assoprava, pedia aos céus …3 a 4, 4 a 4, 4 a 5. Rony Rústico na bola. ..quente, frio, quente , frio e o celular travou por minutos…perdeu! Não!!! 5 a 5….e de repente, no.apagar das horas, Weverton pega o sexto pênalti. Choro. Cabia a Murilo bater o último do Palmeiras. Murilo que quase botara tudo a perder, foi aos céus. Depois assisti o repeteco do jogo. Sofri como se estivesse ocorrendo às duas da manhã.
Acordei e perguntei a Luana se ouvira meus gritos…” do quê?”…ufa.
Sim era hora de ligar ao pai.

o primeiro jogo em 1915

-Pai, viu o jogo?

-Que jogo?
Não interessou a distância decorrente dos quase 95 anos. Contei-lhe detalhes. Narrei os pênaltis. Falei que nosso goleiro negava uma máxima dele ” Pra ser jogador de futebol, tem de ter nome. Não pode chamar Darinta, Osmir, Tonigato. Tem de ser Ademir, Luis Pereira, Dudu.”

-Pai, o goleiro heroi chama Weverton. Isso lá é nome?
Contei-lhe tudo da mais trágica vitória da minha história de 44 anos com o Palestra/ Palmeiras. Deliciei-me como ele dezenas de vezes fez comigo, um menino de coração verde e memórias de flores e espinhos.

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