O Xadrez Diplomático não Aceita Tanques

 O ano era 1984. Nosso maior artista vivo das letras, Chico Buarque, cantava o samba “Vai passar”:

(…) Num tempo
Página infeliz da nossa
História
Passagem desbotada na
Memória
Das nossas novas
Gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
Distraída
Sem perceber que era
Subtraída
Em tenebrosas
Transações (…)”

Chico lembra o sofrimento na ditadura militar (1964-1985), os pés que sangraram as ruas vinham dos milhares de mortos, desaparecidos e torturados pelo Regime Militar. A longa noite antidemocrática parecia estar acabando. No final de 1983, o PT de Lula e o PDT de Leonel Brizola passaram a defender o Projeto de Emenda Constitucional proposto pelo deputado federal Dante de Oliveira (PMDB-MT). O cerne da emenda era a volta das eleições diretas para Presidente. Afinal, a última vez que os brasileiros votaram para presidente havia sido a longínqua eleição do político conservador paulista Jânio Quadros, em 1960.

No início de 1984, o movimento Diretas Já foi crescendo. Saiu de meia dúzia de pessoas nas ruas às multidões. Os setores mais democráticos do PMDB, a Igreja Católica, os órgãos de imprensa (a Globo foi a última a aderir) começaram a apoiar os movimentos de rua. Os comícios foram se avolumando; começaram com menos de mil pessoas em 1983, cresceram para 5 mil, depois 10 mil, 50 mil, até os históricos comícios da Praça da Sé (SP) em março de 1984, com 1 milhão de pessoas lutando pela democracia e, dias depois, na Praça da Candelária (RJ), com perto de 1,5 milhões de cidadãos nas ruas, praças e calçadas. Em cada um deles, corações e almas clamavam por eleições diretas para presidente e a volta da democracia no Brasil.

Certa da vitória no Colégio Eleitoral, a ditadura permitiu a votação da Emenda Dante de Oliveira. Nas vésperas, na Candelária, Osmar Santos narrava a luta pacífica e democrática. Fáfa de Belém e Milton Nascimento cantavam a mil vozes o hino nacional e as músicas “O menestrel das Alagoas” (homenagem a Teotônio Vilela, do PMDB) e “Coração de Estudante”. No palanque estavam políticos cassados pela ditadura como Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião (das Ligas Camponesas) e Leonel Brizola; políticos da velha-guarda como Tancredo Neves, Franco Montoro e Ulisses Guimarães; todos eles junto dos novos líderes, entre eles: Lula, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e o autor da Emenda, Dante de Oliveira. Além deles, diversas instituições estavam nos palanques: a Igreja Católica progressista, a UNE, a OAB, centrais sindicais como a CUT e a CGT e diversas organizações sociais que discursaram, vibraram, choravam, cantavam com o espírito tomado de esperança em reconquistar a liberdade e a democracia. Certamente nosso mais importante movimento popular da história.

Foi um 25 de abril frio que eu, um adolescente, acreditei na vitória. Passeava com a família e amigos de meus pais em Foz do Iguaçu (PR). Às 10h, começou um apagão na cidade. Meu pai e os colegas de excursão temiam o pior. Como faltar energia elétrica na cidade da maior usina hidráulica do mundo (Itaipu)? O certo é que só soubemos do resultado final da votação para as Diretas Já à noite, com a energia reestabelecida. O Sim para as eleições diretas teve 298 votos; o Não, 65. Faltaram 33 votos para a vitória. A estratégia da ditadura foi a abstenção: afinal, 112 deputados não votaram com medo de represálias. Sentei-me numa cadeira no fundo do hotel e chorei compulsivamente pela segunda vez em dois anos. A primeira havia sido o Desastre do Sarriá (em julho de 1982, com a derrota da Seleção Brasileira para a Itália na Copa da Espanha)

Nos dias que se seguiram, o PT e Lula, a CUT e o PDT de Leonel Brizola defenderam a continuidade dos comícios e a derrubada pacífica da ditadura com o povo nas ruas. A ordem era colocar a ditadura nas cordas. Outro grupo juntou o PMDB de Tancredo com os descontentes do PDS (antiga Arena). Nascia o PFL de José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen. Venceu o acordo de cavalheiros. Tancredo (PMDB) se lança candidato a presidente pelo colégio eleitoral com votação indireta, tendo José Sarney (PFL) como vice. Em 15 de novembro de 1984, a chapa Tancredo/Sarney massacra com aproximadamente 4 votos contra 1 o candidato da ditadura, Paulo Maluf (PDS). Passados 4 meses, a ditadura passaria a faixa presidencial de forma pacífica e sem contestação.

Tancredo nunca assumiu, falecendo pouco mais de um mês após a cerimônia que colocou José Sarney na presidência. Ele cumpriu as promessas da campanha de Tancredo e em 1986 foram realizadas eleições gerais no país e a convocação de uma Assembleia Constituinte. No dia 5 de outubro de 1988, foi aprovada a oitava Constituição brasileira, prevendo a volta das eleições diretas para presidente, marcadas para 15 de novembro de 1989 (primeiro turno) e 17 de dezembro de 1989 (segundo turno). Quase 30 anos depois o país agora era livre, democrático e poderia escolher seu novo presidente. Com uma Constituição que garantia os direitos fundamentais de todos os brasileiros e uma série de direitos sociais. Perto de 20 políticos se candidataram ao cargo. Entre eles, por algumas semanas, o apresentador Sílvio Santos. Desde o início, Fernando Collor de Mello, então governador das Alagoas, liderava a disputa. Houve uma luta acirrada pelo segundo lugar entre Mário Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT) e Lula (PT). Os três brigaram voto a voto por vários dias para ver quem iria para o segundo turno, pois como o voto era impresso, a declaração de Lula como segundo colocado com 600 mil votos a mais do que Brizola ocorreu após oito dias do início das apurações.

No segundo turno, uma campanha suja de Collor e a manipulação do debate pela Globo, prejudicando Lula, terminaram com a vitória do “caçador de marajás” com 53,03% dos votos válidos.

Com um governo de confisco da poupança e caos econômico, além de escândalos de corrupção, a partir de setembro de 1992, milhares de jovens começaram a ir para as ruas protestar contra Collor. Liderados pela UNE, os jovens pintavam os rostos com duas faixas, uma verde e outra amarela. Os movimentos tomaram o país e eternizaram os caras-pintadas. Em 29 de setembro, a sociedade civil representada por dezenas de cidadãos célebres entrega o pedido de impeachment contra Fernando Collor. Rápido e contundente, o primeiro presidente eleito depois de 30 anos era afastado do poder. Sob apreensão de volta dos militares, o vice Itamar assume e governa pacificamente por dois anos. Em julho de 1994, lança o plano Real e acaba com o flagelo da inflação que consumia a poupança e os salários do povo brasileiro desde os anos 60. Tornou-se óbvio o lançamento à presidência do “pai do real”, Fernando Henrique Cardoso. O candidato do PSDB teve 54,24% ainda no primeiro turno, derrotando Lula do PT que terminou com 27,5%. Inflação sob controle, investimentos estrangeiros, valorização do salário mínimo, privatizações, Fernando Henrique altera a constituição em 1997 e o mandato do presidente passa de 5 para 4 anos, com direito a uma reeleição. No fim de 1998, as eleições pareciam um repeteco de 1994: Fernando Henrique se reelege com 53,06% no primeiro turno. Lula teve pouco mais de 30% dos votos.

O segundo mandato de FHC começou tenso. Desvalorização de 60% do real, inflação de serviços e, em 2000, a crise do apagão. Até 2002, a situação social e econômica só piorou. Lula foi para o segundo turno contra o candidato governista José Serra. Lula venceu com 61,27% (a maior votação da nossa história). Após três derrotas e sempre respeitando a democracia, o ex-metalúrgico assume a presidência em 1° de janeiro de 2003. Fernando Henrique Cardoso, de forma democrática, instaurou um gabinete de transição que por 45 dias reuniu as duas equipes, a do governo passado e a do que viria. A transmissão da faixa também foi de forma cordial e com amabilidade das duas partes.

Lula governa com muita oposição e críticas diárias da imprensa. Mas com a recuperação dos salários e empregos, aumento real do salário mínimo, além do controle da inflação e um crescimento econômico elevado, supera o escândalo do mensalão e derrota Geraldo Alckmin (PSDB) no 2° turno com 60,5% dos votos em 2006.

O segundo mandato de Lula (2007/2010), apesar da gravíssima crise mundial, foi exitoso, com uma economia estável e em crescimento, as exportações batendo recordes e um ganho real de renda e do salário mínimo. Destaque-se ainda: a expansão da rede pública universitária e o fato de o país se tornar relevante no cenário internacional com participação no G20, na ONU e nas conferências ambientais, Lula conseguiu conduzir sua ministra Dilma Roussef a mais uma vitória eleitoral do PT. Ela derrota José Serra (PSDB) com 56% dos votos válidos em 2010. Dilma adota medidas econômicas distintas das adotadas por Lula e nomeia um ministério com pouquíssimas figuras do alto escalão lulista. Em 2013, a crise econômica se instala. O custo elevado de obras para a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e para as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 foi o estopim para as “jornadas de julho de 2013”: grandes protestos com participação das classes médias e grupos de extrema-direita como os black blocs. Dilma se candidata à reeleição numa campanha difícil e com grande rejeição. A primeira mulher presidente do país consegue vencer novamente com uma margem apertada de 51,6% dos votos e derrotando, desta vez, Aécio Neves, do PSDB. Desde o primeiro dia da derrota nas urnas, Aécio lidera um movimento para anular as eleições.

Em novembro de 2015, o vice-presidente Michel Temer manda uma cartinha para Dilma reclamando do isolamento — aparentemente singela –, com o intuito de anunciar que estava pronto para o golpe. As passeatas de rua com os manifestantes (em sua maioria de classe média) vestindo a camisa da CBF cresceram e atingiram o ápice na Avenida Paulista com 1 milhão de pessoas. Entre os manifestantes, as fisionomias eram diferentes. Saem os rostos de pobres, negros e cidadãos comuns de 1984 e entram as faces brancas e aloiradas de 2014. Sai o Centro Velho de São Paulo e entra o centro financeiro da Avenida Paulista. Em dezembro, o Congresso Nacional aceita o pedido de impeachment. Ao mesmo tempo, a Operação Lava Jato, instaurada em abril de 2014, ganhava projeção nacional. Um juiz do Paraná e uma força-tarefa formada por policiais federais, promotores de justiça e juízes, dão seguimento a um dos processos mais fraudulentos e eivados de nulidades de nossa história, a Lava Jato. Dilma é afastada da presidência em 13 de maio de 2015. Michel Temer assume a presidência como vice de Dilma (Itamar Franco também era o vice do PMDB). O partido governou duas vezes o país sem nunca ter ganhado uma eleição.

Temer fez reformas neoliberais, alterou a Consolidação das Leis Trabalhistas. A operação Lava Jato dominava os noticiários do país e contava com apoio unânime da mídia brasileira, que durante anos bombardeou as esquerdas, os sindicatos, o PT e Lula. Criaram a narrativa do “petrolão”, um suposto esquema criminoso de centenas de bilhões de dólares, jamais provado.

Em abril de 2018 Lula é preso após condenação a 8 anos e 6 meses de prisão. Entrega-se pacificamente e promete uma batalha judicial para provar a inocência. Inicialmente, o PT insiste na candidatura Lula à Presidência, mesmo ele estando preso, mas em julho de 2018 muda a compreensão do cenário político e lança Fernando Haddad à presidência. O segundo turno aconteceu entre Haddad e o líder da extrema-direita brasileira, o então deputado Jair Messias Bolsonaro. O candidato do PSL se elege com 55,16% tornando-se o 11° presidente desde o início da redemocratização do país e o oitavo escolhido pelo voto direto. Um crescimento pífio em 4 anos, uma pandemia desacreditada pelo presidente — incluindo a negação da compra de vacinas, o que atrasou sua aplicação — e um exército de políticos de extrema-direita e outro de produtores de fake news desestabilizam o país. Por várias vezes Bolsonaro colocou a democracia em risco. Bolsonaro se candidata à reeleição, agora pelo PL. Lula, que passara 19 meses preso no Paraná, consegue a anulação de todos os processos contra ele na Lava Jato. Dessa forma, teve seus direitos eleitorais retomados e lançou-se candidato a presidente pela sexta vez. Na mais apertada das votações, Lula vence pela terceira vez com 50,95% dos votos válidos, numa frente ampla, formada pelos ex-adversários Geraldo Alckmin, o vice da chapa de Lula, o PSDB e a candidata do PMDB Simone Tebet, entre outros.

Nove eleições diretas, vários movimentos pacíficos de rua, uma Constituição democrática, social e de direito, dois impeachments. O país adquiriu uma nova face nos últimos 40 anos: democrática, prezando a liberdade; pacífica, inclusive, e com a esperança no horizonte, levemente turva por conta dos brontossauros.

*Martinho Milani é professor de História, Filosofia e Geografia, doutor em História Econômica e mestre em História da África pela USP. Cofundador e articulista do site de blogueiros independentes Terceira Margem onde assina como Frederico Moriarty e articulista do Portal Porque ( portalporque.com.br) local onde foi publicado originalmente este artigo

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