Uma Copa banhada em sangue

Martinho Milani

História Adversa (Portal Porque. ) Portalporque.com.br

Numa Paris do futuro, os imigrantes, pobres e muitos muçulmanos são colocados num gueto e separados por muros e grades dos cidadãos de bem. O Distrito 13 (“B13”, nome original do filme francês de 2004), é uma região tomada pela violência e tráfico de drogas. O detetive Coullier (Cyril Raffaelli) recebe a incumbência de encontrar uma bomba que foi colocada por um político de extrema-direita para matar milhões de pessoas. Lino (David Bello) e Lola (Dany Veríssimo), moradores do gueto, vão ajudar, com direito a muita pancadaria e cenas espantosas de parkour, um misto de dança moderna, saltos ornamentais em ruas, becos e praças dum ambiente urbano.

David Bello é ator e famoso atleta de parkour na França. A estética do filme, misturando barbárie, xenofobia, exclusão social e uma “solução final” de extermínio dos indesejáveis não combina com a propaganda de país multirracial, livre de conflitos e tolerante, propagada desde a Copa da França de 1998. Será que Paris é o paraíso idílico que venderam a Fifa, seu presidente João Havelange e o dirigente Michel Platini? Um quarto de século depois, a França deportou milhares de africanos por diversos motivos (entre eles o de não saber jogar futebol, senão ficariam), proibiu símbolos religiosos nas escolas, sofreu com os atentados às casas de shows e ao semanário Charlie Hebdo. País tão multirracial que o neo-fascismo de Marine Le Pen teve 42% dos votos no segundo turno francês em 2022. Xenofobia é café da manhã para Le Pen. Qual França é mais real? A do Distrito 13 ou a dos bilhões de futdólares? (“História Adversa” defende que o novo futebol arquitetado a partir de 1974, é o novo petróleo. Por isso o neologismo “futdólares”.)

Frankfurt recebeu o 39° Congresso da Fifa em 1974. A escolha do empresário brasileiro João Havelange para presidir a maior organização do futebol mundial iria mudar os rumos do esporte. Sai o romantismo, as lutas nos gramados, as disputas entre craques e entram o predomínio dos interesses comerciais e financeiros, as batalhas entre empresários e as commodities esportivas, o jogador de futebol. Coca-Cola e Adidas tornam-se os primeiros patrocinadores “masters”. Havelange escolhe as 4 Copas próximas; Argentina (1978), Espanha (1982), Colômbia (1986) e Itália (1990). Mira na expansão das fronteiras e seus dirigentes endinheirados e corruptos. Em 1982, a Copa salta de 16 para 24 seleções. Quatro anos depois nascem os mata-matas (em verdade, “mata-morres”, pois uma seleção continua viva). Na Copa da França (1998) um novo pulo, agora para 32 participantes. Na próxima Copa de 2026 (Estados Unidos, Canadá e México), na administração Infantino (o atual presidente da Fifa que diz ter sofrido bullying na infância porque era ruivo), serão 48 seleções. Mais da metade delas nunca chegará a uma semifinal.

A Era Havelange (1974 a 1998) começou bem. Em plena ditadura militar argentina, a Copa de 78 se realiza em meio a protestos internos (como o das “Mães da Praça de Maio”) e internacionais contra as atrocidades do regime argentino. Eram apenas 5 sedes e mesmo assim o torneio foi realizado para favorecer a anfitriã.  A seleção brasileira viajou quase 6.000 km para jogar 7 partidas; a Argentina pouco mais de 500 km. Enquanto a polícia política prendia, torturava e matava opositores ao regime de Jorge Videla, as seleções estrangeiras conviviam com barulhos ensurdecedores a madrugada toda nos hotéis e água “batizada”. Nos gramados, o técnico argentino César Luiz Menotti vivia num paraíso. Na decisão da chave com Argentina, Brasil,  Polônia e Peru, uma mudança repentina para prejudicar nosso país. A Argentina mudou sua partida contra o Peru para a noite, sabendo o resultado do jogo brasileiro contra a Polônia. No primeiro tempo um 0 a 0 com direito a pênalti perdido pelos peruanos (sensação da 1° fase quando derrotou a poderosíssima Itália). Na segunda etapa, um massacre argentino: 6 gols e a classificação. Dias depois, numa final eletrizante, a Argentina derrota a Holanda por 3 a 1 e conquista seu primeiro título, sob os olhares atentos dos ditadores. Os holandeses se recusaram a cumprimentar os ditaduras. A mídia, vergonhosamente, dizia que teriam feito aquilo por serem maus perdedores.

Quatro anos depois, o governo colombiano anuncia a desistência em organizar a Copa de 1986. A lenda: os cartéis de Cali e Medelin teriam ameaçado de morte jogadores e dirigentes da Fifa caso a Copa acontecesse. Os fatos: a Fifa ampliara o torneio para 24 seleções. Exigiu a construção de 12 estádios de 40 mil, 60 mil e 80 mil lugares. Mais a construção de aeroportos internacionais,  intervenções nas redes de comunicações, além de diversas alterações em leis colombianas. O custo à época seria de US$ 3 bilhões (cerca de 5% do PIB do país em 1982). Em 1982, o candidato da oposição vence as eleições colombianas e, estarrecido com as contas, faz um discurso inflamado e populista, enaltecendo a cultura e Gabriel Garcia Marques (vencedor do Nobel de Literatura em 1981). São as palavras de Belisario Betancour em 25 de outubro de 1982, em cadeia nacional:

“Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, anuncio a meu povo que o Mundial de Futebol de 1986 não se realizará na Colômbia, após consulta democrática sobre quais são as necessidades reais do país: não se cumpriu a regra de ouro, segundo a qual o Mundial deveria servir à Colômbia e não a Colômbia servir à multinacional do Mundial. Aqui temos outras coisas a fazer, e não há sequer tempo para atender às extravagâncias da Fifa e seus sócios. García Márquez compensa totalmente o que perdemos em vitrine com o Mundial de Futebol.”

Higuita teria de esperar mais um tempo em Macondo.

Como bem definiu o então líder colombiano, a “multinacional do Mundial” foi ampliando seus negócios, seus custos e exigências. A Copa da África do Sul (2010) custou US$ 7 bilhões. Quatro anos depois, o Brasil investiu US$ 9,5 bilhões. Na Rússia (2018), atingiu US$ 17 bilhões. Até chegarmos aos absurdos US$ 40 bilhões da Copa do Catar este ano. Em 2026 o gigantismo ganhará espaço com 3 países na organização (Estados Unidos, Canadá e México) e 48 nações na disputa. Uma forma de o atual presidente da Fifa, Giovanni Vincenzo Infantino, garantir votos na reeleição, aumentar os lucros da entidade e expandir para 17 sedes e estádios.

Os valores de contratos publicitários, os investimentos de cassinos e casas de apostas (aumentando também os casos de manipulação de resultados), a transformação de clubes em empresas,  a compra de times por empresários bilionários nem sempre com dinheiro limpo, como a máfia russa ou empresas de fachada como a ISL, irrigaram o futebol com bilhões e bilhões. Não é à toa que empresários da CBF como João Havelange e Joseph Blatter foram banidos do esporte. Dirigentes brasileiros como José Maria Marin e Ricardo Teixeira estão, respectivamente, preso e foragido.

Os valores estratosféricos atingiram a tudo e todas as coisas. Uma camisa oficial da Nike/Seleção Brasileira chega a custar US$ 150 ou meio salário mínimo brasileiro. Os ingressos na Copa de 2014 no Brasil beiravam a US$ 600. O esporte das multidões, a torcida pela Pátria de Chuteiras tornou-se inviável para a maioria dos brasileiros. Preços de passes de jogadores e salários também atingiram valores vultosos. Romário foi vendido para o Barcelona em 1995, aos 25 anos, campeão do mundo e escolhido maior jogador do planeta, por US$ 25 milhões. Em 1998, Ronaldo custou US$ 32 milhões para a Internazionale de Milão. Seis anos depois, o Barcelona pagou US$ 50 milhões por Ronaldinho Gaúcho. Neymar foi para o Paris Saint German por US$ 230 milhões. A mais cara transação da história. Todos eles craques renomados e na faixa dos 25 anos. Mas a sanha empresarial ceifa “pés-de-obra” cada vez mais cedo. Vinicius Junior foi contratado pelo Real Madrid por US$ 50 milhões. O mesmo time acaba de contratar Endrick, um garoto de 16 anos e 4 meses, do Palmeiras, por US$ 60 milhões (quase o triplo pago ao consagrado Romário). O menino só poderá jogar na Espanha daqui a dois anos. O hiato entre os bilionários times europeus e as agremiações sul-americanas e africanas é cada vez maior. Somos exportadores de talentos precoces. Enquanto Brasil e Argentina têm 100% dos seus titulares jogando no exterior, clubes como Manchester City com 17 jogadores na Copa, Manchester United com 15 e Chelsea com 13 atletas de diversos países, são seleções multinacionais em campo. Um Davi sem estilingue contra um Golias anabolizado.

Esse era o interesse da Fifa na África do Sul em 2010. Ganhar dinheiro e jamais aceitar qualquer manifestação política. Apartheid? Esqueça. A entidade do futebol contratou os negros pobres e periféricos, pagando salários de fome, alocou-os em guetos operários para construir estádios e linhas de metrôs para a elite africaner e os turistas (na maioria brancos) assistirem. Criou um novo Apartheid.

Na Copa do Brasil, enquanto a crise econômica nos perseguia, a Fifa impunha mais e mais gastos e exigências. Incluindo passar por cima de leis locais, como a que proibia vender bebidas alcoólicas nos estádios. O movimento “não vai ter Copa” ( 2013) tomou as ruas com muita violência e a ascensão da extrema-direita com os black-blocs e depois os liberais e o MBL abriram espaço para as mudanças políticas que viriam no país nos anos seguintes.

A escolha da Copa do Mundo da Rússia (2018) trouxe uma série de problemas. Governado com mãos de ferro pelo ditador Vladimir Putin desde 2000, o país foi tratado como a “melhor Copa da História”. A Fifa e a mídia esqueceram das prisões arbitrárias, da brutal perseguição aos homossexuais no país de Dostoievski e a normalização do assédio sexual contra as mulheres (foram mais de mil denúncias durante a Copa). Curiosamente, em fevereiro deste ano, o antigo queridinho da Fifa, Putin, viu a Rússia ser expulsa das eliminatórias por conta da invasão da Ucrânia.

Finalmente chegamos ao Catar. País sem nenhuma tradição no futebol. Tanto quanto os Estados Unidos em 1994. Em terras norte-americanas vários estádios eram adaptados das arenas de “football”, diversos jogos com estádio vazio, além da falta de cultura futebolística, alegoricamente representadas no canto e dança desengonçado de Diana Ross na abertura da Copa que terminou com a estrela pop chutando um pênalti e mandando a bola parar nas Cataratas de Niágara.

Há dez anos o Catar começou sua transformação com os bilhões de petrodólares (ou futdólares). Construiu 9 estádios monumentais e gigantescos numa distância máxima de 50 km um do outro. Um deles feito de containers desmontáveis que irá desaparecer após a Copa (o absurdo é tratado como inovador pela mídia brasileira). Em volta dos estádios construiu-se uma rede de hotéis,  restaurantes, bares, cassinos para receber os turistas. Verdadeiros resorts temporários. Três estádios serão vendidos após a Copa. Sobrarão 5 elefantes brancos. Num país onde o trato com a bola é semelhante ao de um rinoceronte em piscina de bolinhas.

Pela primeira vez a Copa está sendo disputada às vésperas do Natal, na alta temporada europeia, com estádios com ar-condicionado e grama sintética. Os jogos são realizados no fim da noite para aproveitar a queda na temperatura, mas que deve interferir no rendimento dos atletas por conta do fuso horário. Tudo é “fake” na Copa do Catar.

O emirado (eufemismo para monarquia absoluta) é hereditário. Para se ter ideia da união familiar, o avô do atual Emir (este sempre aparece nas tribunas dos jogos) foi assassinado pelo próprio filho (e pai do atual Emir) num golpe de Estado nos anos 70. A família real tem uma fortuna de US$ 350 bilhões, cerca de US$ 100 bilhões a mais do que o PIB do país. A imprensa marrom e amarela brasileira exalta o fato de ninguém pagar por saúde, educação, eletricidade ou impostos no país. Ninguém, entre aspas, apenas os cataris têm o privilégio. O Catar tem 2,8 milhões de habitantes e somente 300 mil são cataris. Além deles, cerca de 100 mil trabalhadores estrangeiros de alto escalão têm as mesmas benesses. Os outros imigrantes, cerca de 85% da população, vivem na semiescravidão.

A construção da Copa do Catar foi trágica. Denúncias da Anistia Internacional, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do jornal inglês The Guardian falam que mais de 6.800 trabalhadores morreram na construção das obras. A resposta do governo do Emir é sempre o silêncio, apesar de o país ser sede da Al Jazeera, principal rede de informações árabe. O governo catari também está envolvido em financiamento de diversas organizações extremistas do Oriente Médio.

Outra crítica usual relaciona-se ao tratamento destinado às mulheres no país. O Catar segue a lei da Sharia. Mulheres são propriedades dos homens, seres inferiores e sem direitos humanos básicos. As turistas estrangeiras têm um visto especial, um salvo conduto de 30 dias. Podem exercer seus “direitos” ocidentais nas zonas da Copa. Pior é a situação da comunidade LGBTQIA+.  A questão de gênero e a homossexualidade são tratados como crime no Catar. Algumas seleções tentaram protestar nos jogos iniciais, mas foram caladas pela Fifa. Parabéns à seleção alemã que, mesmo assim, fez um protesto no primeiro jogo, com todos os jogadores fazendo o sinal de “cale-se”. Nada diferente do que ocorreu na Rússia e na África do Sul.

Cabe uma ressalva. O historiador e filósofo Edward Said alertava para o que chamava de “orientalismo”. Especialista nos estudos culturais do período imperialista, Said acredita que existe uma ideologia xenófoba por parte do mundo ocidental. Radicalismo, extremismo, racismo, preconceito,  xenofobia, machismo, homofobia seriam características “típicas” do mundo oriental, em especial árabe e muçulmano. O Orientalismo é um preconceito e xenofobia generalizado e abjeto contra os povos do Oriente, perpetrado pelos ocidentais “cristãos e superiores”. A barbárie está em todos os cantos, o desrespeito aos valores humanos – infelizmente –, é universal.

Essa, como várias outras Copas antecedentes, se dá em meio a um banho de sangue e horrores. A continuidade se dá porque esse é o modelo lucrativo da empresa Fifa. Se olharmos para o simpático mascote La’eeb (jogador muito habilidoso em português), veremos os paradoxos inerentes. De um lado ele nos lembra um fantasminha, talvez a nos fazer não esquecer das mortes e violências para a realização da Copa. Do outro, nos parece um alegre Keffyeh a voar e buscar os sonhos, representando a ideia original do futebol, de ser um esporte praticado por qualquer pessoa, sexo, idade, em qualquer viela ou beco e com a função única de nos alegrar o corpo e espírito e compartilhar paz e harmonia nas vitórias e derrotas.

E que venha o Hexa. E não veio….

*Martinho Milani é professor de História, Filosofia e Geografia, doutor em História Econômica e mestre em História da África pela USP. Cofundador e articulista do site de blogueiros independentes Terceira Margem, em que assina como FREDERICO MORIARTY

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