Solte a Voz nas estradas

FREDERICO MORIARTY

(Foto de capa retirada do acervo de Milton Nascimento. Bituca e sua mãe, Lília em Três Pontas)

Muitos te dirão “não faça”,”não vá”, “não conseguirás”, “pegue este atalho”, ” não arrisque”, ” não viva “.
Maria do Carmo Nascimento, negra, morava na favela da Tijuca. Doméstica, engravidou do namorado aos 16 anos. O rapaz, claro, fugiu. Maria dobrou o expediente e com ajuda da mãe foi criando o menino miudinho. Quando o menino fez dois anos, Maria entrou em depressão e com a imunidade baixa, abriu portas para uma tuberculose que a devastou em poucos meses. Tragédia ainda comum no Brasil. A avó passou a criar o mulekinho sozinha e o levava ao trabalho consigo – de doméstica é óbvio. Uma de suas patroas era Lília Campos, professora de canto e ex-aluna de Vila Lobos. Casada com Jovino Campos, o casal ( de brancos) não conseguia ter filhos. Ela apegou-se ao menino e acertou a adoção. Duas exigências cumpridas: manter o nome dado pela mãe e permitir as visitas da avó.

o famoso ” bico”. Acervo da família

Lilia e Jovino se mudaram para Três Pontas (MG). Jovino comprou uma rádio e Lília dava aulas de canto. Adotaram mais um casal antes de ter a filha biológica. O menino gostava de cantar. Mas aos 10 anos chegou chorando em casa. Com medo mostrou o boletim à mãe. Dessa vez não fez o bico, que o pai comparou ao dos índios botocudos, e nos momentos de birra o chamava ” lá vem o Bituca”. Era só nota alta, tudo azulzinho da cor do céu. Saltou aos olhos da mãe uma vermelhidão no papel. Um traço maldito que podia destronar um rei. O menino estava reprovado em canto. As lágrimas escorriam dos olhos da mãe e do filho. Lília e Jovino tiraram o menino da escola, foi aprender onde lhe respeitassem. Dois anos depois estava numa orquestra. Aos 14 ele e Wagner Tiso tocavam e cantavam nos bailes da vida.

Wagner Tiso ensaia com Bituca. O Globo.

Aos 23 anos conheceu a rainha Elis. Tornaram-se amigos e parceiros. As duas mais belas vozes de nossa Música Popular Brasileira. Elis certa vez disse com razão: ” Se Deus tivesse uma voz, ela seria a o Milton Nascimento “

o velório de Elis

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